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Nos anos 90, a 314/315 Norte carregava um dos cenários mais ocultos da história de Brasília. O local era conhecido por toda a cidade como o epicentro da prostituição no Plano Piloto.
Era ali que a noite ganhava contornos próprios, onde a dinâmica do desejo, da marginalidade, da sobrevivência e da resistência se cruzavam de forma intensa.
A famosa boate Queens era a responsável por isso. Com sua promessa de uma noite que nunca terminava, o lugar reunia prostitutas, músicos, curiosos e toda uma fauna urbana que dominava o território e também a permanência. Ao redor da boate, carros parados nas esquinas movimentadas formavam um circuito que começava no início da noite e só se dissolvia ao amanhecer.
Do ponto de vista urbano, aquele trecho da Asa Norte se transformou em um limite simbólico. Como descreve Leticia Sabsay em Fronteiras Sexuais, sociólogos chamam áreas como essa de ‘fronteiras sociosexuais’: zonas de disputa, onde regras sociais, moralidade pública, práticas econômicas e vulnerabilidade se chocam. Na 314/315, essa fronteira era explícita. Não havia filtro. A cidade via e muitas vezes ignorava o que acontecia ali.
Moradores, comerciantes e coletivos locais organizavam protestos frequentes. Havia conflito aberto entre quem vivia na região e a dinâmica noturna que tomava o espaço.
A história da 314/315 Norte nos anos 90 é isso: um ponto entre interesses, invisibilizações e tensões urbanas que moldaram parte da cidade.