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Sim, aquele hoje tão pacato centro comercial do Cruzeiro Velho já teve dias bem mais safadinhos.
Inaugurado em meados dos anos 1970, o Cruzeiro Center logo atraiu bares e, pela proximidade com áreas militares, também muitos rapazes. E vocês sabem: onde tem rapazes, tem rapazes que curtem rapazes.
Para uma comunidade gay que ainda precisava construir seus próprios mapas de Brasília, havia outra vantagem: era um lugar relativamente discreto, longe dos bares mais conhecidos do Plano Piloto.
Com o tempo, correu a notícia de que alguns daqueles rapazes também estavam na pista para negócios. A michetagem entrou na geografia sexual do Cruzeiro.
Na segunda metade dos anos 2000, outro capítulo começou quando um cinema pornô se instalou ali, com duas salas, uma dedicada a filmes heterossexuais e outra a filmes gays.
O curioso é o momento histórico. Os antigos cinemas pornôs de Brasília já haviam desaparecido, mas a tecnologia havia barateado radicalmente a operação: projetor, tela e conteúdo digital permitiam que uma velha tipologia sexual urbana reaparecesse em escala muito menor.
O cinema consolidou o Cruzeiro Center no imaginário sexual de Brasília. A michetagem, porém, virou notícia, produziu reclamações e provocou pressão sobre o lugar.
O cinema acabou fechando. Enquanto isso, boa parte daquele mercado migrou para sites especializados e, depois, para outras plataformas digitais.
A geografia sexual também muda quando muda a tecnologia.